Por Profa. Adriana Cristina Soares de Souza, doutora em Farmacologia pela UFMG e professora de Farmacologia do Curso de Farmácia do Centro Universitário Newton Paiva
Como professora universitária tenho a oportunidade de conviver com adolescentes e estou assustada com o uso cada vez maior, e ás vezes indiscriminado, de antidepressivos nessa faixa etária. A depressão, principalmente a endógena, também chamada de depressão maior é uma doença que realmente necessita de tratamento farmacológico e psicoterápico. Porém, é preciso deixar claro que tristeza é diferente de depressão, estar profundamente triste, chorar, sentir frustração nem sempre é estar deprimido.
Em relação ao tratamento da depressão várias questões me preocupam, uma dessas está relacionada com a crescente participação de clínicos gerais na prescrição de antidepressivos. Não que o clínico geral ou um pediatra não possam prescrever antidepressivos para as crianças, adolescentes e adultos. A prática é corriqueira e legalmente aceita no Brasil e em outros países. A questão é se esses médicos realmente possuem as ferramentas necessárias para se fazer um diagnóstico e um ajuste de dosagem, o que muitas vezes pode levar a uma prescrição desnecessária e/ou uma dose incorreta de antidepressivos. Uma outra questão está relacionada com o tratamento, sendo feito apenas com o antidepressivo, que muitas vezes melhora os sintomas depressivos mas não trata a causa real da depressão, a qual será trabalhada na verdade com o acompanhamento psicoterápico. Por isso, muitas pessoas não conseguem parar de usar o antidepressivo.
Apesar dos avanços no tratamento farmacológico e a descoberta de novos fármacos, quando um medicamento é prescrito sempre deve ser feito a avaliação do benefício e dos efeitos colaterais desse medicamento. Em meados dos anos 80 e início dos anos 90 surgiram no mercado os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (fluoxetina, paroxetina) que logo substituíram a geração anterior de antidepressivos, os tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), na preferência de pacientes e médicos por apresentarem menos efeitos colaterais, como distúrbios cardiovasculares.
Contudo, o FDA - agência Norte Americana que regula a eficácia e segurança de medicamentos - e posteriormente a ANVISA divulgaram um alerta de saúde pública, chamando atenção para um aumento do risco de suicídio (pensamento ou comportamento suicida) em crianças e adolescentes que fizeram uso dessa nova classe de medicamentos. Até que ponto os inibidores seletivos da recaptação de serotonina são vantajosos em relação aos outros tipos de antidepressivos? Certamente não deveriam ser recomendados com a mesma segurança anterior, especialmente para pacientes jovens. No entanto o que me chama a atenção é que a maioria dos adolescentes que fazem uso de antidepressivos utilizam essa classe de medicamentos. Isso é uma prova de que esses medicamentos têm sido prescritos em demasia entre jovens e adolescentes, muitas vezes para tratar quadros de tristeza e ansiedade ditas fisiológicas ou que fazem parte do próprio crescimento e desafios humanos, para os quais o limite entre os riscos e os benefícios é incerto.
Em conclusão a banalização do uso de antidepressivos é uma realidade, o ser humano precisa entender que a tristeza é diferente de depressão. Tristeza ou alegria são sentimentos normais que fazem parte da vida e do nosso próprio amadurecimento, enquanto a depressão, corretamente diagnosticada, é uma doença séria e precisa ser tratada com responsabilidade.