Sinasa mira beneficiários dos planos de saúde
Com a meta de conquistar clientes insatisfeitos com os planos de saúde tradicionais, o Sistema independente de Saúde (Sinasa) mira no mercado que até março totalizava 43,1 milhões de beneficiários de planos de saúde e encerrou o ano passado comum faturamento de R$ 65,28 bilhões. Os dados são da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A estratégia adotada é uma nova modalidade de saúde privada em que o paciente paga uma anuidade ao Sinasa e um valor menor pelas consultas diretamente ao médico ou ao hospital, seguindo uma tabela do setor.
Criada em 2004 com o apoio da Associação Paulista de Medicina, a empresa é controlada pelo BMG, um dos maiores grupos financeiros do País,e totaliza 40 mil associados cadastrados. A empresa tem 2,5mil médicos cadastrados e cobra anuidade. O paciente paga ao médico o valor do piso da categoria, que, segundo a Sinasa, é de R$ 42. Para falar sobre estes e outros assuntos, o programa “Panorama do Brasil” traz uma entrevista com José Humberto Affonseca, presidente do Sinasa. Parceria do DCI com a emissora TVB e com a rádio Nova Brasil FM,foi apresentado pelo jornalista Roberto Müller e teve a participação de Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM, e de Camila Abud, editora de Serviços, de Comércio e do Caderno São Paulo do DCI.
Roberto Müller: Por que o Sinasa irá revolucionar o sistema de saúde?
Humberto Affonseca: Quando criamos o Sinasa,pensávamos muito no modelo de saúde vivida no País. Até 1998, os planos trabalhavam sem nenhum tipo de regulamentação no Brasil.Cada um tinha um modelo de contrato de prestação de serviço, cada empresa propunha um serviço para o mercado. Naquele ano, a Lei 9.656 regulamentou os planos de saúde em todos os tipos de atividade. A ANS foi criada nessa época para regulamentar os planos de saúde. Ela dizia o seguinte: “Nenhum plano de saúde pode trabalhar sem ter qualquer cobertura, tem de ter todas”. Isso era muito bom para o usuário,mas, por outro lado, um plano de saúde que custava em média R$ 400, passou a custar R$ 700. Isso limitou grande parte o acesso da população a um plano. A partir daí, passamos a ver planos antigos e novos. O primeiro tinha cobertura total e o segundo, não. As empresas seguradoras, que têm de trabalhar sempre em um processo atuarial, têm de ter um limite em um contrato de seguro,pararam de trabalhar para a pessoa física e passaram a priorizar a pessoa jurídica. E o mercado mudou,caiu muito.Hoje, a grande maioria está em plano de pessoa jurídica.Então como faz um aposentado, aquele cara que trabalhou a vida inteira em algum lugar e tinha o plano de saúde da empresa? Aos 65 anos, o custo do plano de saúde está por volta de R$ 700 ou mais, e ele ganha por volta de R$ 800, que é o preço de uma aposentadoria média no Brasil. Dos22 milhões de pessoas aposentadas no Brasil, cerca de 70% não têm plano de saúde. Há pouco tempo fez 50 anos que o Brasil ganhou a Copado Mundo. Dos 22 jogadores que ganharam a Copa, 17 foram ao presidente Lula pedir plano de saúde.Eles, que eram heróis do País e trouxeram a maior alegria, não tinham plano de saúde.
Milton Paes: As pessoas com mais de 65 anos não são interessantes para os planos de saúde porque usam mais o sistema, e a filosofia dos planos é usar o menos possível. Qual o diferencial do Sinasa dentro desse contexto dos planos?
Humberto Affonseca: No plano de saúde,você paga para ter uma cobertura e paga uma mensalidade, usando ou não. Logo,quanto menos você usar,melhor é para o plano de saúde, e isso é incoerente. No Sinasa é justamente o contrário. Eu sei que o médico quer ter uma relação direta com o seu paciente, até por uma questão ética. O Sinasa não é um intermediário. Eu indico um médico para o paciente,e o paciente paga diretamente a ele. Se o médico mandar fazer um exame, ele o faz, e quanto mais pessoas usarem eu fico feliz, porque o meu serviço está sendo bem feito. Com isso, eu não estou perdendo nem um tostão. O médico está muito feliz porque está atendendo mais pessoas e ganhando mais, o laboratório está feliz porque está prestando serviço direto para o cliente dele e quem está pagando é esse cliente.
Roberto Müller: Qual é a mágica?
Humberto Affonseca: Você faz com que as pessoas paguem direto para todo mundo e todos ficam felizes.Eu não preciso constranger o meu cliente por ele estar usando mais ou menos o plano de saúde, cada um administra a sua conta.
Milton Paes: Se o paciente vai ao médico particular hoje, e não tem Sinasa, nem plano de assistência médica, ele pagará R$150 por uma consulta. Sendo associado da Sinasa, ele pagaria um valor muito menor que o particular. Já o plano de saúde paga ao médico, mas leva dois meses. Explique isso.
Humberto Affonseca: Hoje, 97%dos médicos do Brasil dependem dos planos de saúde para viver porque a grande maioria das pessoas que vão a um médico particular usa um plano de saúde. Em 50 consultas, 3 ou 4 são particulares. Aquelas que ainda não são clientes de planos de saúde poderiam usar um sistema igual ao Sinasa, ao invés de pagar R$400 por mês. E colocariam o dinheiro na poupança. E quando fossem ao médico a cada três ou quatro meses, pagariam R$42 por mês, que é o piso do que cobramos.
Camila Abud: Mas para ser associado ao sistema do Sinasa, paga-se uma anuidade?
Humberto Affonseca: Sim, que equivale a um mês de plano médico. Você paga R$ 396 por ano e tem acesso à agenda do médico, com a qual se escolhe o tipo de especialista, pela internet ou por telefone. É possível saber se ele tem um título de especialista, onde se formou e quanto tempo tem de formação. É um parâmetro para você escolher um médico. Depois disso,o paciente pode ligar para a nossa central ou acessar o nosso site e marcar uma consulta. Ao chegar no médico,você paga os R$
42paraomédico, que é o piso,e 85% dos médicos cobram esse valor.
Camila Abud: Atualmente quantos médicos estão cadastrados e quantos clientes o Sinasa tem?
Humberto Affonseca: São 2,5 mil os médicos e mais ou menos 40 mil os clientes cadastrados no sistema. Percebemos que aqueles dogmas estão começando a ser derrubados. Todo mundo compra plano de saúde por causa do hospital e por causa do grande risco. Hoje uma conta hospitalar pode quebrar uma família, não podemos mentir, mas a grande maioria faz procedimentos de baixo risco. O filho passa mal à noite,fica duas horas no hospital, faz exames, e vai embora para casa. Noventa por cento das pessoas que procuram um pronto-socorro fazem um exame ou uma consulta e vão embora para casa. O Sinasa fez uma parceria com a Bandeirantes Transportes Emergenciais (BEM), que atende 24 horas por dia com um médico ao telefone. Este mês, por exemplo, minha mãe teve labirintite e ligou para o BEM. Um médico atendeu e foi vendo qual a gravidade do assunto, se precisava mandar um médico. Vieram dois paramédicos em ambulância com unidade de tratamento intensivo (UTI) completa. Foram feitos todos os exames para saber se era algo grave. Por fim, ela ficou em casa, porque não precisava ser levada a hospital. Uma senhora de 80 anos de idade levada ao hospital ficaria dez dias internada para fazer exames; e, pelos exames realizados na hora com a ambulância, viram que era labirintite, não precisava de hospital.É assim com89%dos nossos clientes que procuram um hospital: eles ligam, o médico atende, vai à casa da pessoa e resolve o problema.
Roberto Müller: A maioria dos médicos atende através de convênios médicos e planos de saúde. Eles obtêm mais lucro, se possuírem a parceria da Sinasa, do que teriam do convênio com os maiores planos do Brasil? Quanto os planos pagam atualmente?
Humberto Affonseca: Na verdade, o mercado é livre. Cada plano de saúde paga conforme a negociação realizada com os médicos credenciados. Os convênios pagam de R$ 20 até mais de R$ 40 reais nos planos médios. Existem planos de primeira linha, de alto nível, que pagam até R$ 150 reais, mas isso é o topo da linha. A grande maioria paga o valor médio, e com isso eles têm um prazo para efetuar esse pagamento, que demora em torno de dois meses. Por fim, o que existe é o seguinte: quando o médicos e forma,faz uma série de juramentos importantes e entre eles destaco o que diz que não é permitido se ater a interferências entre médico e paciente. Esse regulamento está diretamente ligado à filosofia da Sinasa,que também não interfere na relação entre médico e paciente, pois não paga a conta, então o paciente tem o direito de escolher seu médico, quem irá atendê-lo, quem irá realizar uma cirurgia. Todos têm direito de saber quando o médico se formou, em que universidade, qual título de especialista possui. O cliente escolhe o profissional que melhor lhe agrada e paga diretamente a ele.
Camila Abud: Para a classe médica é importante essa parceria, pois o profissional recebe na hora a consulta do cliente, que por sua vez tem uma economia e uma segurança não habituais. O consumidor também recebe um atendimento mais rápido se comparado ao de um convênio, que em alguns casos chega a marcar uma consulta com intervalo de 3 a 4 meses; sem contar a espera do paciente até que o plano de saúde a aprove. O Sinasa atrai empresas interessadas em parcerias?
Humberto Affonseca: Esta é uma relação muito interessante. Quando me referi à lei para a pessoa física, ela possui uma série de coberturas. Quando falamos de pessoas jurídicas, não existe essa determinação, mas sim um acordo entre as empresas.Atualmente, a grande maioria das empresas operadoras de saúde, que englobam asseguradoras de saúde e os próprios planos, trabalham da seguinte forma: com pequenas, médias e grandes empresas, propõem-se a atender os funcionários da empresa. Com isso, a empresa passa a operadora da faixa etária de seus subordinados, e com base
nisso é determinado o valor por vida. E caso ocorra uma alteração na utilização, quem paga a conta? Vou citar um exemplo: uma empresa possui 100 funcionários, para cada um é pago o valor de R$ 100. Além disso, existe uma cobrança chamada taxa de sinistralidade, que a operadora obriga o empresário a pagar. Isso significa que, caso a empresa utilize mais de 70% do total pago, ela irá arcar com os custos acima disso. Então, o responsável pela conta é a empresa contratante, que,mesmo senão usar os R$ 100, ainda assim pagará o valor total. No Sinasa a história é diferente: se a empresa utilizar R$ 70 reais ela paga só isso, não os R$ 100. E se ultrapassar, ela paga o que consumir. Isso é mais justo, pois não ganhamos na utilização.
O nosso serviço é um sistema independente e único,em que oferecemos a ele um software no qual é possível colocar todos os agendamentos de seus funcionários, consegue acompanhar quem está
marcando uma consulta e, com isso, reduz uma série de problemas na empresa, pagando um valor justo. Portanto,não ganhamos um percentual sobre a utilização, ganhamos uma anuidade.
Camila Abud: Mas não faz parte de uma cultura a questão de convênios médicos? Essa é a maior barreira que vocês têm de enfrentar? Isso em relação ao cliente, não aos médicos.
Humberto Affonseca: Essa é a nossa maior barreira,é um paradigma. Nos últimos 40 anos, as empresas de planos de saúde foram os maiores anunciantes do Brasil. Comentava-se: “Um dia na UTI é um ano no plano de saúde, faça ainda hoje o seu”. Vendeu-se a idéia, aos brasileiros, de que era fundamental ter um plano. Todos os meios de comunicação estavam abarrotados de anúncios de planos de saúde, com helicópteros e apartamentos modernos. Mas quantas pessoas usaram os helicópteros? Menos de 0,1%, de um milhão de usuários. Logo, nestes quarenta anos, todo mundo comprava com base nas propagandas. Por isso desenvolvemos um negócio diferente e democratizamos esse serviço, demos uma opção para o cliente escolher. Nos hospitais, a história é a mesma. Eles trabalham com um número muito grande de pacientes com plano de saúde, por isso, quando recebem um cliente particular, não sabem como atendê-lo. Na grande maioria dos casos, quem paga a conta é o plano. Isso ficou conhecido como cheque em branco, pois chega um indivíduo no hospital com certa urgência e tudo que for preciso usar para curá-lo será disponibilizado. Entretanto, o plano de saúde fará uma auditoria para verificar os custos sobre aquela conta, o que é uma ação normal. No Sinasa, isso é um pouco diferente, nós não fazemos nenhum procedimento de emergência no hospital, apenas indicamos o procedimento eletivo, que representa 75% dos apartamentos em hospitais do Brasil. Ou melhor, você vai ao médico e descobre que está com um problema e ele sugere uma cirurgia. Você liga para o Sinasa, que lhe recomendará os hospitais que fazem a cirurgia necessária. Isso é um procedimento eletivo. Um outro exemplo: caso o paciente precise realizar um parto na cidade de São Paulo, o valor ficaria por volta de R$ 5 mil. No particular, ficaria mais ou menos o dobro desse valor. Mas, se o problema for pedra no rim, no Sinasa você pagaria R$ 3,2mil, e por conta própria é o dobro disso.Então o paciente tem a opção de mais de mil procedimentos eletivos, que o nosso cliente paga direto ao hospital.
Camila Abud: Você tem alguns índices do setor médico em relação a internações, ou quantos exames são realizados anualmente, o valor gasto e a comparação entre os planos médicos e o Sinasa?
Humberto Affonseca: A Agência Nacional de Saúde é que organiza todos esses números aqui no Brasil. Segundo ela, 5,7 das consultas realizadas pelo brasileiro por ano são feitas através dos planos de saúde, além de oito exames e uma internação a cada dez anos. Esta é a média de uso. Dos nossos 40 mil usuários, a média de uso é de 1,5 consulta por ano, porque existe o fator inibidor que é o pagamento da consulta. Os planos estão sendo penalizados pelo fato de o brasileiro achar que não paga nada pela consulta porque existe o uso indevido.Se compararmos,há 10 anos, faziam-se 2 ou 3 consultas por ano, agora esse número subiu para quase seis. Como no Sinasa você só paga os R$ 42, fechamos com esse numero de 1,5por ano.Portanto, se hoje uma pessoa guardasse R$ 200 por mês, que é o valor que se paga em um plano de saúde, e colocasse em uma aplicação de1% ao mês, ela teria, ao final de um ano, R$ 1,9 mil. Em 30 anos esse número saltaria para R$ 2,8 milhões. Não conheço ninguém que tenha R$ 2,8 milhões guardados em um banco para usar com a saúde. Logo, a proposta não é solucionar os problemas do universo, mas oferecer uma alternativa inteligente, em que a pessoa tem o direito de escolher.
Fonte: Jornal DCI
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